Muito além da Baleia Azul

20/04/2017

 

Captura de tela/Google.

“No Brasil a repercussão dessa notícia falsa, em tom alarmista, pelo telejornal de uma grande emissora na TV aberta, fez com que aumentassem as buscas no Google pelo suposto jogo em mais de 1.000%. Em um erro de abordagem, a matéria mostrou com detalhes e de forma “didática” como se engajar nessas comunidades e quais eram os “desafios” para chegar até o fim do “game”.” – Safernet.

Não é culpa da Baleia Azul – a gente já mostrou em outro post o tanto de sensacionalismo e histeria por trás de um suposto grupo que convence crianças e adolescentes a se matarem. O problema é mais sério e existe há mais tempo que o hoax made in Russia. Pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil, 11% de crianças e adolescentes relataram terem tido acesso às páginas que ensinavam formas de se machucar e 6% de cometer suicídio, isso representa mais de 2,5 milhões de crianças e adolescentes no Brasil.

Os dados foram divulgados pela Safernet Brasil, que oferece um serviço gratuito de escuta, acolhimento e orientação especializada destinado a crianças, adolescentes, pais e responsáveis que estejam vivenciando alguma situação de risco ou violência online. O Canal de Ajuda tem equipe de psicólogos está disponível das 14h às 18h através de chat ou por e-mail. A conversa é criptografada e mantida sob  sigilo e é garantida a confidencialidade de todas as informações fornecidas pelos usuários. As mensagens são acessadas apenas pela equipe de psicólogos e só poderão ser reveladas às autoridades em situações de suspeita ou confirmação de grave violência contra crianças e adolescente, obedecendo o previsto no Art. 245 do Estatuto da Criança e Adolescente.

É claro que é muito mais fácil culpar a internet ou um suposto “jogo” mortal que aceitar que o filho, sobrinho, aluno, esteja se automutilando ou tenha pensamentos suicidas. Por isso a gente vai continuar a falar mais sobre isso e oferecer algumas dicas de como conseguir ajuda como o CVV e as dicas da Safernet. Aqui no blog, temos uma seção inteira com textos, campanhas e ações de comunicação sobre suicídio e tudo que tem a ver com esse tema.

Pode te ajudar agora!

Na nota divulgada hoje pela Safernet em sua página do Facebook, tem uma série de dicas e esclarecimentos importantes para jovens usuários de internet, mídia e os pais:

É jogo? –  “Game” ou “Jogo” não é o nome mais apropriado para nomear o fenômeno; não se trata de um aplicativo, programa de computador, serviço ou plataforma online que possa ser acessada. As evidências coletadas no Brasil indicam a existência de grupos em aplicativos de troca de mensagens e comunidades e fóruns em redes sociais, que se intitulam como nome de jogo ou game, e que foram criadas a partir da repercussão, no Brasil, da notícia falsa e alarmista originada na Rússia;

Separando sociapatas dos trolls –  O nome do “jogo” já viralizou na Internet e não faltam hashtags e fan pages. Entre os grupos, deve-se separar aqueles com indivíduos que estão efetivamente cometendo o crime de induzir, instigar ou auxiliar o suicídio de alguém, tipificado no Art. 122 do Código Penal, daquelas que foram criados como consequência da onda de alarde e para “causar” ou fazer trollagem;

Responsabilidade da mídia – Se você faz parte de algum veículo de notícias ou é um influenciador digital, saiba que sua abordagem e as informações que você veicula interferem na proporção e propagação desse fenômeno no Brasil. Veicular detalhes, nomes, exemplos e outros recursos para atrair a atenção e estimular a curiosidade, ainda que mórbida, só contribui para o surgimento de mais páginas e conteúdos oportunistas sobre o assunto.

A baleia azul está induzindo o suicídio? – É precipitado estabelecer um nexo causal entre a existência de um “jogo” e a ocorrência de casos concretos de suicídio. Ainda que hajam relatos de casos concretos de suicídio relacionados a alguma atividade de grupos e comunidades online, o suicídio é um fenômeno complexo, multifatorial e de difícil simplificação, e deve ser encarado como uma questão de saúde pública, e não apenas de segurança pública.

Meu filho faz parte de um grupo tipo baleia azul, o que faço? – A família, a escola, o poder público e a sociedade em geral deve dar atenção aos grupos mais vulneráveis da população, sobretudo adolescentes com histórico de depressão, tentativas de suicídio e outros sofrimentos psicológicos graves; não devemos, jamais, minimizar ou subestimar o que eles falam. Por isso, diante de sinais de angústia e sofrimento, vale uma conversa com um profissional, que saberá indicar o tratamento adequado.

Melhor proibir uso da internet? – Proibir o acesso a Internet pelos filhos, confiscar celular e monitorar o uso de aplicativos através de programas “espiões” são medidas pouco educativas e fadadas ao fracasso. Elas não previnem os riscos e compromete o vínculo de confiança que deve existir entre pais e filhos. A tentativa de eliminar qualquer exposição a riscos em espaços públicos como a Internet é praticamente impossível, e os pais e a Escola precisam conversar de forma franca e aberta sobre como os adolescentes podem lidar e responder a esses riscos. É parte do desenvolvimento saudável – e preparação para a vida adulta – que o adolescente desenvolva habilidades para lidar com os riscos à sua volta, isso se chama resiliência, que só pode ser desenvolvida enfrentando riscos num ambiente onde ele possa pedir ajuda e com espaço para falar sem pré-julgamentos e reprimendas.


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