Assédio não está na moda

17/03/2017

Estadão faz manifesto contra assédio sexual na SPFW

Modelos entraram na passarela de Amir Slama com frases de empoderamento como ‘minha saia não é um convite’ e ‘me visto como eu quiser’ escritas no corpo

Publicado em 16/3/2017 pelo Estado de S. Paulo

Quando os flashes atingiram os corpos de quatro modelos na passarela da Amir Slama nesta quinta-feira, 16, na São Paulo Fashion Week, o público ficou surpreso. Mensagens de conscientização e empoderamento feminino apareceram nas imagens registradas pelos celulares e câmeras fotográficas da plateia. Trata-se da campanha ‘Sexismo Invisível’, idealizada pelo Estado e assinada pela agência de publicidade FCB, com o objetivo de promover o debate sobre o assédio nem sempre explícito (mas muito comum) cometido contra as mulheres.

A ação, que aconteceu durante o desfile, contou com uma tinta especial invisível que só pode ser visualizada em fotografias tiradas com flash. As frases ‘Decote não é convite’, ‘Minha saia não é permissão’, ‘Me visto como eu quiser’ e ‘Perna de fora não é provocação’ ganharam as redes sociais com a hashtag ‘#decotenaoeconvite’. As letras foram aplicadas em diferentes partes do corpo das modelos fazendo relação com as roupas. “Encontramos uma nova forma de chamar a atenção para uma questão que deveria ser óbvia: a liberdade das mulheres de se vestir como quiserem, sem que isso seja interpretado de forma diferente pelos homens”, explica Marcelo Moraes, diretor de Marketing do Grupo Estado.

A frase 'minha saia não é permissão' foi escrita na perna de uma das modelos

A frase ‘minha saia não é permissão’ foi escrita na perna de uma das modelos Foto: JF DIORIO /ESTADÃO

O desfile escolhido para a ação foi o de Amir Slama, estilista renomado da moda praia. Na coleção, inspirada em um show de Elis Regina, Slama trouxe roupas com pegada esportiva, além de muitos biquínis e maiôs modelo asa-delta. As referências aos anos 1980 apareceram ainda na cartela de cores vivas, como pink, roxo, vermelho e verde, nas estampas tipográficas que remetiam aos grafites da época e às peças em prata e dourado. Lamês e paetês, muito usados na época, também estavam lá, além dos decotes profundos, vazados e barrigas de fora “Quem determina o que está na moda é o consumidor. E a moda ajuda a mulher a se expressar e a se colocar”, diz Amir Slama. “Muitos homens ainda encaram como uma provocação o fato de as mulheres quererem usar roupas curtas ou decotadas. Isso é um absurdo.”

A tinta especial só aparecia com a luz do flash

A tinta especial só aparecia com a luz do flash Foto: JF DIORIO

Uma das frases do projeto apareceu no corpo de Marcela Thomé, modelo transgênero que estreou na semana de desfiles nesta temporada. “A SPFW sempre apoiou causas relevantes para a sociedade. E a valorização, o respeito e o empoderamento da mulher são relevantes para o evento”, afirma Paulo Borges. A ideia do projeto surgiu com o debate sobre o papel da moda e o limite entre o elogio e o assédio. “A intenção do nosso trabalho para o Estado é colocar uma nova luz sobre essas questões graves, mas cotidianas, surpreendendo as pessoas através do uso de diferentes tecnologias”, diz Fabio Simões, diretor executivo de criação da FCB.

A tinta usada nas mensagens foi importada dos EUA e costuma ser usada por ciclistas que pedalam à noite. Com uma pigmentação especial, o produto é ativado com os faróis e na passarela foi retratado com flashes. Segundo Simões, a SPFW, palco da moda brasileira, era o lugar ideal para refletir sobre a questão. Na moda, o tema vem sendo debatido e tratado com respeito por ativistas. “Temos o poder de incitar conversas que podem transformar opiniões que parecem estar consolidadas”, afirma a diretora de Redação da Elle Brasil, Susana Barbosa.

'Perna de fora' não é provocação foi outra das frases escolhidas

‘Perna de fora’ não é provocação foi outra das frases escolhidas Foto: JF DIORIO /ESTADÃO

Essa foi a quarta ação que o Estado desenvolveu com a FCB Brasil com o tema da igualdade de gênero e violência contra a mulher. Em 2016, o jornal colocou na rua a campanha #7minutos1denuncia, lembrando o número de denúncias de agressões contra mulheres. A ‘Músicas de Violência’, feita em parceria com o aplicativo Shazam, teve o intuito de evitar que usuários fizessem download de canções que podem incitar o abuso. Neste ano, no aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro, foi lançado o projeto #somosmaisque16porcento, que também levantou o debate sobre representatividade feminina.

“Tem se falado muito em feminismo, é uma discussão muito pertinente. O assédio é o mais grave e é muito velado. Por isso, campanhas assim são muito importantes”, diz Marina Caruso, diretora de Redação da Marie Claire.


3 respostas para “Assédio não está na moda”

  1. Assédio realmente não está na moda! Amei essa iniciativa. Que sempre hajam boas iniciativas como essa para que a cada dia o assédio diminua ainda mais.

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