Maioria se vicia

03/08/2007

jornal

Dois terços dos que experimentam cigarro se viciam

Por Emilio Sant’Anna

Publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 08/3/2007

Apesar de a venda de cigarros ser proibida para menores de 18 anos, a adolescência é a fase em que a maioria dos fumantes dá sua primeira tragada. Uma pesquisa da Santa Casa de Misericórdia do Rio e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revela que dois terços das pessoas que experimentam um cigarro se tornam viciadas. Outra constatação é que essa experimentação acontece, em média, com 16 anos.

A pesquisa foi realizada em todos os Estados brasileiros e ouviu mais de 3 mil pessoas com 14 anos ou mais. Ela aponta também que, após a experimentação, o uso diário do tabaco começa pouco antes dos 18 anos, em média. Ou seja, a lei não é cumprida e a prevenção do contato do adolescente com o cigarro é falha no Brasil.

Uma das autoras da pesquisa, a psiquiatra Analice Gigliotti, da Santa Casa de Misericórdia, explica que a nicotina – um dos componentes do cigarro – é a droga que mais causa dependência. “Comparada com outras, ela tem um poder de vício muito maior”, afirma.

Por ser uma droga socialmente aceita, assim como o álcool, o fumante acaba não percebendo seu grau de dependência. A longo prazo, no entanto, os efeitos começam a aparecer. Além de doenças vasculares e coronarianas, o cigarro é responsável por nada menos do que 90% dos casos de câncer de pulmão.

A prevalência de fumantes verificada foi de 20%, o que corresponde a 26 milhões de brasileiros. Da população estudada, 66% fumou em algum momento da vida. Na população adulta, a prevalência de fumantes é maior entre os homens. Entre adolescentes, meninos e meninas têm índices semelhantes.

CIGARRO MAIS CARO

Analice defende o aumento progressivo dos preços dos cigarros para coibir o contato dos adolescentes com o fumo. “É a medida mais eficaz e de mais baixo custo para o governo.”

A psiquiatra, no entanto, reconhece que apenas isso não basta. Sem uma fiscalização eficiente dos estabelecimentos que vendem cigarros e dos produtos contrabandeados – mais baratos -, a medida é ineficaz.

A primeira tragada da estudante Bruna de São Miguel, de 19 anos, foi com 11, na companhia de uma amiga. Ela não se considera dependente e desde os 16 anos fuma “só nas baladas”, conta. “Fico sem fumar, numa boa. Mas as pessoas começam a fumar ao meu lado e eu acabo acendendo um cigarro.”

O pneumologista Sérgio Ricardo Santos, coordenador do Núcleo de Apoio à Prevenção e Cessação do Tabagismo (PrevFumo), da Unifesp, explica que são três os fatores que podem levar a pessoa a fumar: condicionamento, prazer e dependência. Apesar de nem todos os fumantes serem dependentes, o vício costuma se instalar rapidamente. “Essa dependência pode se instalar em semanas ou até mesmo em dias”, diz Santos, que não participou do estudo.

Como ocorre com as bebidas alcoólicas, o risco de os adolescentes experimentarem o cigarro parece, em muitos casos, quase inevitável. “Faz parte da essência do indivíduo nessa fase querer testar coisas que são consideradas perigosas”, afirma Santos.

Apesar de o Brasil ter uma legislação considerada avançada no combate ao tabagismo, o que continua surpreendendo o médico é a idade média do contato com o primeiro cigarro. Reflexo da falta de fiscalização: “Estamos em um país que proíbe a venda para menores de 18 anos, mas a maioria dos estudos mostra uma idade média muito anterior para a iniciação.”

Assim como Bruna, Henrique Vital Andrade, de 24 anos, começou a fumar cedo. Tinha só 13 anos quando acendeu seu primeiro cigarro. Parou aos 16 e voltou aos 19. Agora, há pouco mais de um mês, conseguiu largar o vício novamente, mas luta contra as recaídas. “Não quero mais voltar. Não vou deixar o vício falar mais alto”, diz.

Emilio Sant’Anna é repórter do jornal O Estado de São Paulo
*Matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo em 03/08/07