Epidemia de assédios

18/12/2017

Tunggal Pawestri,foi vítima de assédio sexual num ônibus do transporte público quando tinha 14 anos. (Kemal Jufri para The New York Times)

Mulheres indonésias combatem ‘epidemia’ de assédios

Por Joe Cochrane
Publicado pelo NY Times.

JACARTA, Indonésia — Tunggal Pawestri diz que nunca vai esquecer o dia em que foi apalpada no transporte púbico quando ia de ônibus para a escola em Jacarta, capital da Indonésia, quando tinha 14 anos.

“Eu congelei”, disse ela que, embora já estivesse acostumada com a saraivada de assédios cotidianos (em geral assobios e comentários sexualmente sugestivos), ficou atônita quando um homem começou a se esfregar nela por trás. “Eu não sabia o que fazer”, contou Tunggal, que hoje trabalha numa organização para mulheres.

Duas décadas mais tarde, um número cada vez maior de ativistas como Tunggal estão ganhando destaque explicando exatamente o que fazer: denunciar o velho problema do assédio nas ruas, calçadas, trens e ônibus em toda a Indonésia, o quarto país mais populoso do mundo.

“Trata-se de uma epidemia e, infelizmente, no momento, a Indonésia não oferece proteção jurídica contra o assédio sexual”, explicou Yuniyanti Chuzaifah, vice-presidente da Comissão Nacional para a Violência Contra a Mulher, acrescentando que certa vez foi apalpada depois de dormir num ônibus da rede pública de transporte.

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Tunggal Pawestri verifica o aplicativo Hollaback, que registra queixas de assédio praticado nas ruas. (Kemal Jufri para The New York Times)

“As mulheres precisam ser corajosas e fazer as denúncias, e o atendimento da polícia às vítimas deixa muito a desejar”, disse ela.

Ativistas da Indonésia calculam que milhões de incidentes de assédio que ocorrem nas ruas deixam de ser relatados todos os anos. A Polícia Nacional da Indonésia não respondeu às solicitações da reportagem por dados oficiais a respeito dos casos de assédio nas ruas.

De acordo com a comissão das mulheres, num país de mais de 260 milhões de habitantes, foram feitos apenas 268 boletins de ocorrência por assédio nas ruas no ano passado, seja na polícia, em organizações não governamentais ou na própria comissão. Mas, somente na região de Jacarta, mais de 200 mulheres publicaram relatos de assédio e abuso ocorridos nos 12 meses mais recentes na versão indonésia da plataforma Hollaback, uma iniciativa internacional contra o assédio nas ruas.

“Me parece que o assédio nas ruas se tornou algo normal em nossa sociedade”, disse Anindya Restuviani, coordenadora do Festival Feminista da Indonésia, que organiza eventos em torno de questões da mulher.

As autoridades designaram vagões exclusivamente para as mulheres nos trens mais lotados e criaram espaços para elas nos ônibus da rede pública, mas, para as ativistas, é preciso fazer mais.

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Um vagão exclusivamente para mulheres em Jacarta. Esses vagões estrearam em 2010 para impedir o assédio nos transportes. (Kemal Jufri para The New York Times)

Em 2014, Kate Walton, autora australiana que mora em Jacarta, criou um grupo de discussão online depois de vivenciar o assédio nas ruas. Em janeiro, ela realizou um experimento, caminhando de sua casa no sul de Jacarta até um shopping, a 4 quilômetros de distância. Ela foi assediada 13 vezes em 35 minutos, e publicou mensagens no Twitter a respeito de cada incidente no momento em que o episódio ocorria.

O grupo de Kate tem mais de 2 mil participantes, tanto indonésias como estrangeiras, e os relatos de casos de assédio das ruas são um tópico comum.

“Quanto maior o número de histórias que chegarem ao público, mais as mulheres reúnem a coragem para denunciar o que ocorre com elas”, disse, mostrando-se frustrada com o comportamento que as mulheres são obrigadas a aturar nos espaços públicos da Indonésia. “É algo que se torna muito desgastante quando ocorre dia após dia”.


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