O assédio na publicidade

24/08/2017

Agência nordestina escancara o assédio na publicidade

Por Gabriel Grunewald

Publicado pelo Adnews em 24 de Agosto de 2017

A cada hora 503 mulheres são violentadas, segundo o Datafolha. Desse modo, a cada minuto mais de oito delas são são vítimas de violências. Se engana, ou se esforça para não ver, quem pensa que tais atitudes acontecem só em casa ou longe de nossos olhos. No ambiente de trabalho elas também ocorrem. Perguntadas sobre assédio em lugares públicos, 40% das mulheres com mais de 16 anos dizem já ter sofrido esse tipo de agressão. No entanto, 66% dos brasileiros falam que presenciaram agressão física e verbal no último ano.

Tido como um lugar com maior liberdade e respeito às diferenças, o mercado publicitário ao invés de se tornar palco desta necessária discussão, parece também ignorar tantos números e casos. Preocupadas com todo esse cenário alarmante, as mulheres da agência de TagZag de João Pessoa não se calaram e criaram uma plataforma para expor tudo o que sofrem diariamente.

Nomeado de “Esse Case é Foda”, o projeto brinca com a predileção que o pessoal tem por cases de sucesso na propaganda e faz com que ele seja impactado por um assunto que nem todos querem se lembrar. Pois, como dito no início do texto, nesse um minuto de leitura mais uma mulher foi violentada em algum lugar do país e provavelmente você já se esqueceu disto.

Para escancarar toda essa triste realidade, a agência paraibana realizou uma pesquisa nos 9 estados da região, com 200 publicitárias. Nela, entre outros números, é demonstrado que 71% das profissionais da área já sofreram assédio no trabalho. Confira abaixo o resultado de toda essa pesquisa:

Divulgada organicamente, de publicitária para publicitária, numa espécie de “boca a boca virtual”. A ação completa conta postagens nas redes sociais, envio de cartazes para agências do Nordeste e relatos que expõem o que as profissionais da área sofrem rotineiramente. Veja abaixo a confissão que chega a chocar por ser tão direta e ao mesmo tempo tão próxima:

Para entender toda a abrangência da estratégia que consegue tratar de um assunto vergonhoso com criatividade e disrupção, batemos um papo com Carol Crozara, head de digital da TagZag. As ilustrações criadas pelas colaboradas da agência para a plataforma ilustrarão a entrevista.

Da esquerda para direita. Fileira de trás: Sheila Abreu, Renata Matos, Samara Coutinho, Juliana Gonscar, Elis Mendes e Mariana Craveiro. Fileira do meio: Gabriela Borges, Regina Céli, Renata Rodrigues, Caroline Crozara e Raquel Lisboa. Sentadas no chão: Flávia Tabosa e Rebeca Matos

Qual a história das criadoras do trabalho?

Aqui na agência tem bastante menina engajada na causa feminista, então o assunto sempre estava na pauta. Somos de diversos departamentos e diferentes localidades também: tem mineira, goiana, paraibana, paulista e, independente do mercado, o assunto sempre surgia. Muitas de nós somos amigas acima de colegas de trabalho, então isso facilita encontrar uma pauta em comum.

Por quê o nome “Esse Case é Foda”?

O “foda” tem dois sentidos, né? A gente utiliza quando acha algo muito incrível e quando acha algo muito ruim, então quisemos brincar com isso para despertar a curiosidade do pessoal. Lançamos um teaser falando dos cases mais foda do Nordeste e, quando entrava no hotsite, a pessoa via que estávamos falando de assédio. Publicitário adora cases e, por estarmos conversando com esse público, tivemos liberdade de utilizar termos específicos do mercado e deixar a linguagem mais direta.

Você sofreu preconceito ou dificuldades para viabilizar o projeto?

Especificamente por causa do projeto não. Sofro preconceito e dificuldades todos os dias. hahaha É muito difícil ser mulher na nossa sociedade e a luta feminista é algo que defendo muito, então regularmente tenho embates e discussões sobre isso. Talvez por estar nessa luta sempre, não vi uma reação diferente pela criação do projeto. Nós encontramos muito apoio das meninas e percebi um mercado que está desesperado por mais igualdade.

Maria Guimarães, do meia cinco dez, também é nordestina. Há alguma ligação entre a região e a gana por expor as violências contra as mulheres?

Acho que o movimento de expor as violências contra as mulheres está super em alta, independente do estado. Ainda bem. As pessoas têm falado mais sobre isso, as mulheres têm lutado mais e estamos aceitando cada vez menos a realidade que sempre nos foi imposta. Um exemplo disso é que a campanha mapeou apenas as publicitárias do Nordeste, mas estamos recebendo contato de meninas de todo o país se identificando com a causa e com as situações que expomos.

Como tem sido a resposta das agências aos dados apresentados?

Extremamente positiva. As pessoas sabem que aquilo é uma realidade, porque as pessoas vivem isso. Não estamos contando um grande segredo, só estamos escancarando algo que muitas vezes fica velado. Acho que as publicitárias se viram com voz e, por isso, receberam tão bem a campanha. Recebemos muito apoio dos homens também. Estamos em uma sociedade bastante machista e a discussão é necessária. Acho que o primeiro passo da campanha foi dado, que é fazer as próprias agências olharem para dentro e repensarem seus ambientes. Afinal, somos nós que produzimos o material que acaba impactando a sociedade como um todo. Se estamos em um ambiente tão machista, a publicidade acaba sendo machista e retratando a mulher da forma errada.

Há intuito de continuidade deste trabalho?

Sim. Igualdade de gênero no mercado de trabalho é uma luta, e lutas não podem parar. Tivemos um embrião dessa campanha ano passado, quando mapeamos apenas o mercado de João Pessoa e publicamos um 360 no Facebook com alguns dados. Este ano já quisemos entender a realidade do Nordeste todo, e foi muito bem recebido. Ainda não sabemos o que vamos fazer ano que vem, mas sei que não podemos ficar paradas.


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