Os muxes do México

15/05/2017

Retrato de Kazandra, vestida com o traje tradicional do Istmo de Tehuantepec, junto ao altar da família. Em todas as casas zapotecas, é possível encontrar um altar dedicado aos entes queridos falecidos, com seus retratos e estampas de santos. Foto:NURIA LÓPEZ TORRES

Terceiro gênero do México: o povoado onde homens assumem papeis das mulheres

Chamados de muxes, eles são respeitados nas famílias tradicionais e vistos como os melhores filhos

Por Jacobo García
Publicado no El País em 15/5/2017

Dizem em Juchitán que São Vicente, patrono dessa região do sul do México, viajava com três sacos cheios de grãos que ia distribuindo por todo o país. Em um deles, estavam os grãos masculinos; no outro, os femininos; e, em um terceiro, eles eram misturados. “Em Juchitán, o terceiro saco rasgou”, brincam os habitantes das comunidades zapotecas. Bem na cintura do México, no Istmo de Tehuantepec (Estado de Oaxaca), vivem os muxes, indígenas nascidos com sexo masculino que assumem papeis femininos.

Conhecidos como o terceiro sexo do México, acredita-se que a palavra “muxe” venha da adaptação fonética da palavra espanhola “mujer” (mulher). Os zapotecos formavam, a seu tempo, uma das civilizações mais avançadas da Mesoamérica.

Os muxes, presentes já na época pré-colombiana, são respeitados nas famílias tradicionais, onde são considerados os melhores filhos, pois, diferentemente dos heterossexuais, que acabam virando independentes, eles nunca saem de casa e se tornam um ponto de apoio incondicional, especialmente para as mães. Em algumas famílias sem filhas, ocorre até mesmo de as mulheres criarem um dos filhos homens como se fosse uma menina.

Alondra, de 14 anos. Desde os 13, tem clareza do fato de ser uma muxe.

Estrella, com um véu de traje tradicional, ao estilo do “resplendor” do imaginário religioso.

 

Alondra estuda maquiagem e trabalha no mercado vendendo huipiles (blusas indígenas).

Fernanda, na porta de sua casa, onde mora com a mãe idosa. Trabalha como doméstica na residência de uma família que mantém comércio em Juchitán. Cuida da limpeza e, principalmente, da comida.

Estrella e sua mãe se dirigem à festa de aniversário de uma outra muxe. Estrella teve de abandonar a escola ainda muito pequena para ajudar a mãe no mercado. Andam sempre juntas. Ela concebe os bordados usados nos trajes tradicionais e se encarrega das bordadeiras. Também é professora de dança em uma escola primária e dá aulas particulares para as danças em festas de debutantes (rito de passagem de menina a mulher, aos 15 anos, na cultura latina).

Maitê, em seu quarto. Ela é costureira e também ajuda a mãe na botana que mantém na própria casa.

Marisol, no mercado de Juchitán, onde gerencia uma pequena botana (boteco ao ar livre).

Naomy prepara as medalhas que usará com o traje tradicional. Ela estuda engenharia industrial, mesma carreira seguida pelo pai, na Universidade de Juchitán. Os pais a apoiam e sentem muito orgulho dela.

Fotos: Nuria López Torres.


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