Pare de fingir que é normal

24/11/2017

Em um processo seletivo desconcertante, as pessoas foram obrigadas a lidar com uma série de perguntas inusitadas e abusivas. As entrevistas foram feitas com pessoas reais. O entrevistador avisava que, se fosse selecionado, o candidato ia sofrer bullying, teria de mudar a aparência, aceitar piadas e não teriam plano de carreira. Aliás, poderiam esquecer promoções. Chocados, os entrevistados demonstraram total incômodo. Sim, foi uma pegadinha.

O que os entrevistados ouviram é realidade para a maior parte dos negros no Brasil.  “Chega de fingir que é normal” é a nova campanha do Governo do Paraná e  do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Paraná sobre racismo. A criação é da Master e contou com a parceria de uma empresa real de recrutamento, que convidou profissionais em busca de emprego para participar de uma entrevista em uma empresa fictícia.

No filme nenhum dos candidatos brancos aceitou trabalhar em tais condições, o que reforça o conceito da campanha: se você não aceita isso para você, por que um negro deveria aceitar? É a segunda vez que o Governo do Paraná encabeça uma campanha sobre o tema. No ano passado, o Teste de Imagem chocou o país e foi destaque nos principais veículos de comunicação.

Além do filme que traz as reações dos candidatos, a campanha também conta com spots de rádio e o site, que traz informações e estatísticas sobre o racismo institucional.

Racismo no mercado de trabalho brasileiro

Os negros enfrentam dificuldade na progressão de carreira, na igualdade de salários e são os mais vulneráveis ao assédio moral no ambiente de trabalho, apesar da proteção constitucional contra o racismo e a discriminação. A avaliação é do Ministério Público do Trabalho (MPT).

Segundo a coordenadora da Coordigualdade do MPT e procuradora do trabalho Valdirene Silva de Assis, por causa do preconceito, os negros têm também dificuldade de ocupar cargos de maior exposição, como relações públicas, caixa bancário, secretários e recepcionistas.

“Observamos que nosso texto constitucional traz proteção – nós temos vários dispositivos, alguns específicos sobre a questão trabalhista, que versam sobre os direitos sociais e que mencionam expressamente a vedação de toda e qualquer forma de discriminação, de diferenciação de salário, e o crime de racismo também é tipificado pela Constituição Federal. Apesar disso, a sociedade nos mostra que essa estrutura legal não consegue fazer com que se caminhe em uma situação diversa [da discriminação e da exclusão racial]”, disse Valdirene durante o Seminário Racismo no Mundo do Trabalho, na sede do MPT em São Paulo.

A representante da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no evento, Thaís Faria, apresentou dados que mostram a continuidade desse modelo de discriminação e racismo. “Quando olhamos os dados sobre salários e sobre informalidade, vemos como a situação é extremamente real e cruel. A média de salário do homem branco é R$ 2.507; a da mulher branca, R$ 1.810; a do homem negro, R$ 1.458; e a da mulher negra, R$ 1.071”, disse Thaís, que é oficial técnica em princípios e direitos fundamentais no trabalho da OIT.

Quando o recorte é o trabalho informal, a mulher negra tem a maior taxa de informalidade no mercado de trabalho no Brasil. “Vemos, por exemplo, que, na categoria das trabalhadoras domésticas, quase 90% são mulheres negras”, ressaltou a representante da OIT. Ela acrescentou que grande dessas mulheres é chefe de família e que a categoria das domésticas é uma das que mais sofrem de depressão, inclusive pela instabilidade no trabalho.


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