Assumir um debate

11/04/2007

Por Vladimir Safatle

Nos últimos meses, o debate em torno de um sistema público e nacional de comunicação de massa voltou à tona. No entanto, não podemos dizer, no sentido forte do termo, que exista um debate. Uma “reação” seria o termo mais adequado. Desde que o governo federal resolveu colocar em pauta seu desejo em criar um canal nacional e público de TV, os leitores dos grandes jornais se depararam com um mantra a respeito de desejos escusos visando enfraquecer a imprensa democrática.

Não se tratou, em momento algum, de criticar algum projeto específico, até porque não há um projeto apresentado pelo governo à sociedade. Ao que consta, o projeto ainda será feito. Tratou-se simplesmente de reagir à simples possibilidade de uma TV pública que tenha alguma relevância. Uma postura, diga-se de passagem, classicamente defendida por vários setores empresariais no Brasil.

É claro que todos conhecemos o risco de dirigismo que existe em projetos desta natureza. Conhecemos também o risco de interferência de interesses econômicos e partidários em redes privadas de televisão. Estes, por sinal, conhecemos muito bem. Assim como conhecemos também o alto índice de oligopolização do mercado brasileiro de comunicação de massa. Por isto, é importante abandonar uma postura meramente reativa e partir para a discussão a respeito do modelo de TV pública que precisamos.

Vale a pena lembrar como, em vários países do mundo, as TV públicas transformaram-se no único espaço de comunicação de massa capaz de quebrar uma convergência cada vez maior de conteúdos, assim como a espetacularização da informação e a infantilização do público. Elas não disponibilizam apenas conteúdos clássicos, mas também abrem espaço para experimentações formais que nunca seriam possíveis em televisões privadas (a franco-alemã Arte é um belo exemplo aqui). Por outro lado, elas têm uma função maior no interior do debate político. Lembremos que o único canal de televisão capaz de realmente colocar o governo britânico na parede a respeito de suas mentiras sobre a Guerra do Golfo foi a BBC. Que tal compararmos a cobertura da BBC com aquela vergonhosa oferecida pela Fox News?

Tudo isto apenas nos faz ver que experiências mundiais de televisão pública podem oferecer modelos para a construção de uma alternativa brasileira. O que devemos discutir é qual o caminho devemos seguir para conseguir implantar tais modelos. Até porque, o que temos em matéria de televisão não vale sequer um comentário.

Vladimir Safatle é professor de Filosofia da Universidade de São Paulo